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CARONA PARA O FIM DO MUNDO

“Eu deixei louça na pia e comida na geladeira”.

Órion Lalli - 1° “imagem” pós-exílio.

Desde que eu saí às pressas da minha casa no Brasil para pedir asilo na França, há uma frase martelando na minha cabeça, “Eu deixei louça na pia e comida na geladeira”, quase diariamente, “Eu deixei louça na pia e comida na geladeira”. Só agora, quase um ano desde que cheguei em terras francesas, que decidi trabalhar com a imagem dessa frase tão simbólica, sincera e que serve de ponto de partida para a criação dessa performance no Festival Actoral.

 

O meu corpo é casa, é templo, lugar de afeto e acolhimento. A arquitetura residencial, principalmente em momentos de crises mundiais, marca historicamente a forma de pensar o lar e posso observar o quão engendrado o isolamento social, na pandemia da Covid-19, por exemplo, reformulou a ideia do que é “estar seguro”, do que é casa, acolhimento, e do que é afeto, para toda a sociedade.

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Em um primeiro momento eu preciso ampliar o contexto da palavra “exílio”, que hoje é oficialmente decretada pelo governo francês que me reconhece enquanto refugiado. É importante voltar no tempo para reformular esse contexto que me faz pensar que esse mesmo exílio que me atravessa hoje, sempre esteve sorrateiramente presente no meu corpo, que desde muito jovem vive um isolamento social e o exílio da sociedade cisgênera, seja na relação familiar, escolar, com conhecidos ou amigos, onde eu sempre experienciei a ideia de isolamento social.

 

Por isso é necessário o resgate das minhas memórias de infância, partindo das brincadeiras de casinha com meus irmãos e toda a relação com a construção de quem eu sou hoje.

“Uma cama nos vê nascer e nos vê morrer. É a cena em constante mudança em que a raça humana joga, alternadamente, dramas interessantes, farsas risíveis e tragédias terríveis. É um berço decorado com flores. Um trono de amor. Um sepulcro.”

 

Xavier de Maistre - Viagem ao redor do meu quarto

Como acessar simbolicamente a minha antiga casa? Qual seria hoje, estando do outro lado do oceano, a minha versão dessa minha casa imaginada, surrealista? Como usar da minha ideia ruidosa da estética brasileira e sua profusão de formas para construir esse corpo/casa?

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I - Colecionador

 

Alinhado com a imagem da frase “Eu deixei louça na pia e comida na geladeira”, e colocando em prática o meu repertório de reapropriação de objetos, decido fazer uma lista com algumas das minhas principais lembranças e materializá-las através de diferentes objetos cotidianos que estejam ligados alegoricamente com alguma dessas minhas memórias; uma cueca, um isqueiro e um cigarro, um punhado de areia, um retrato quando criança, alguns medicamentos, carvão, lata de atum, garfo, barbeador, linha de costura, chaves, etc.

 

Os objetos são colocados individualmente em sacos plásticos com fechamento a vácuo, criando diferentes percepções metafóricas. Uma forma de tocar e reviver a minha casa, meu afeto, revisitando a caixinha de recordações para seguir vivo, paralelamente à loucura colecionista desses fragmentos de memórias de um possível “Viajante Colecionador de Memórias”, que plastifica cuidadosamente suas lembranças, armazena tudo o que lhe é simbólico para durar o maior tempo possível protegendo-as do ambiente externo, construindo a sua coleção particular de memórias setorizadas, catalogadas, preservando seu cheiro, suas imperfeições e seu conteúdo afetivo.

Esses sacos com objetos embalados a vácuo são alinhavados na roupa dessa persona, “Viajante Colecionador de Memórias”, criando um corpo que caminha com suas memórias a mostra, um corpo afirmativo que transporta a sua trajetória por onde transita, ressignificando a ideia dessa “casa que se movimenta”, de uma casa ambulante em uma espécie de universo fantástico, onde todo o mundo cabe nesse corpo/casa.

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II - O Voo. A Liberdade.

Meu avô uma vez me disse que os aviões são como grandes pássaros de ferro, e quando olho para o céu e vejo esses pássaros, logo me vem à cabeça a palavra liberdade. Será que sou realmente livre dentro desse exílio que me cerca desde as minhas primeiras lembranças de menino?

 

Quando criança, meu pai construiu um grande avião de papelão onde poderíamos, dentro dele, brincar de pilotar. Eu me lembro que nos divertíamos muito, tinha briga e contávamos o tempo para saber de quem era a vez de pilotar aquela máquina.

Nessa nova performance, eu decido construir o mesmo avião de papelão, com as mesmas cores, contudo dessa vez com dois lugares para que eu possa oferecer uma carona aos transeuntes do museu ofertando uma pequena “brincadeira de criança”, criando relação com o espectador/transeunte na corda bamba do que é real e do que é ficcional.

 

Eu também empresto o meu corpo para dar vida a esse “Viajante Colecionador de Memórias”: ele será o piloto desse avião, é o piloto dessa possibilidade de liberdade recheado com as suas memórias mais antigas, materializadas, alinhavadas e expostas nos sacos de plástico embaladas a vácuo por todo o seu uniforme.

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Com o avião já com seu devido piloto e esperando para alçar voo pelas áreas do museu, o transeunte é convidado a embarcar, é verificada a identidade do carona e depois sua mão é carimbada como nas inspeções de imigração, levantamos “voo” como quem revisita tempos distantes. Ao final do pequeno trajeto o carona pode sair do avião, nesse momento o piloto “Viajante Colecionador de Memórias” pede para que o carona escolha um dos inúmeros sacos plásticos embalados a vácuo, o piloto retira o saco escolhido e entrega ao carona dizendo:

 

“Parabéns, você acaba de adquirir uma das minhas memórias.”

 

E esse ciclo se repete inúmeras vezes, até todas as memórias se esgotarem, e por mais que o piloto “Viajante Colecionador de Memórias” colecione muitas e muitas dessas recordações, uma hora nesse percurso e encontros que é a vida, ele acaba ficando sem sua belíssima coleção.

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III - Memórias

 

“E se o confinamento tivesse poderes

inebriantes e virtudes libertadoras?”

 

Xavier de Maistre

Viagem ao redor do meu quarto

O carona, já com uma das memórias em mãos, recebe um Certificado de Autenticação da memória escolhida com um pequeno texto a descrevendo para que esse objeto/memória se transforme em uma obra visual que será levada por quem participar dessa performance.

 

Esse passo é importante para que o transeunte/participante se dê conta que está levando com ele uma obra visual assinada e única.

 

O Certificado de Autenticação contém o número da memória escolhida, assinatura, instruções para emoldurá-la, como interagir com a obra nas redes sociais, além de um QR Code com os desdobramentos da performance e todas as memórias e suas respectivas histórias.

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Remerciements

- Nino Djerbir

- Vanessa Mattara

- Tono Guimarães

- Ana Maria Haddad